A otite é uma inflamação do ouvido, na maioria dos casos uma infeção do ouvido médio, o pequeno espaço atrás do tímpano, que surge quase sempre na sequência de uma constipação. É uma das doenças mais frequentes da primeira infância: a maioria das crianças tem pelo menos uma antes dos três anos. É dolorosa, mas geralmente benigna e trata-se bem. No Luxemburgo, o pediatra ou o médico de família é o primeiro contacto certo para uma otite pontual; o otorrinolaringologista (ORL) entra em cena quando as otites se repetem.
Duas da manhã, uma criança aos gritos
Quase todos os pais conhecem a cena. A criança andava constipada há uns dias, nada de preocupante. E então, a meio de uma noite de inverno, acorda a chorar, inconsolável, com uma mão colada à orelha. Deitada, a pressão atrás do tímpano aumenta — é por isso que a dor rebenta tantas vezes durante a noite. Respire fundo: uma otite que se declara às duas da manhã quase nunca precisa das urgências. Precisa, isso sim, de um médico ao longo do dia seguinte.
Porquê as crianças, sobretudo?
Tudo se passa num pequeno canal chamado trompa de Eustáquio, que liga o ouvido médio à parte de trás do nariz e serve para arejar o ouvido. Na criança pequena, esta trompa é curta, estreita e quase horizontal: as secreções de uma constipação sobem por ela com facilidade e ficam presas. O líquido retido atrás do tímpano torna-se um terreno ideal para os micróbios. Junte-se um sistema imunitário ainda em aprendizagem e a vida na creche, onde os vírus do inverno circulam sem parar, e percebe-se porque é que as otites atingem sobretudo as crianças entre os seis meses e os três anos. Com o crescimento, a trompa alonga-se e torna-se mais vertical, e as otites vão rareando por si.
Reconhecer a otite numa criança que ainda não fala
Uma criança de dezoito meses não diz « dói-me o ouvido ». Mostra-o de outras formas, e alguns sinais devem chamar a atenção:
- leva a mão à orelha, puxa-a ou esfrega-a repetidamente;
- chora mais de noite ou assim que é deitada, mas acalma ao colo, na vertical;
- tem febre, quase sempre no fim de uma constipação;
- come e mama menos, porque sugar e engolir despertam a dor;
- está irritável, dorme mal, parece reagir menos aos sons;
- por vezes escorre um líquido amarelado da orelha — possível sinal de que o tímpano rompeu sob a pressão.
Esse corrimento impressiona, e muitas vezes alivia a dor de repente. Justifica uma consulta no próprio dia, mas não é uma emergência vital.
Otite média ou otite do nadador?
Duas otites muito diferentes partilham quase o mesmo nome. A otite média aguda, a das noites de inverno, situa-se atrás do tímpano e segue-se a uma constipação. A otite externa, conhecida como « otite do nadador », é uma inflamação do próprio canal auditivo, favorecida pela água das piscinas e pelos verões húmidos: a dor agrava-se tipicamente quando se puxa o pavilhão da orelha ou se pressiona à frente dela, e a febre é rara. A distinção importa, porque o tratamento não é o mesmo — e é o médico, ao observar o tímpano, que faz a diferença.
Quando consultar, e o que faz o médico
Dor de ouvido com febre numa criança justifica uma consulta no próprio dia ou na manhã seguinte, com o pediatra ou o médico de família. Consulte sem esperar se a criança tem menos de seis meses, se a febre é mal tolerada, se o ouvido está a deitar líquido, se a dor persiste apesar das medidas de conforto, ou se notar vermelhidão e inchaço atrás da orelha que a fazem descolar da cabeça — este último sinal, raro, exige avaliação urgente; ligue o 112 se o estado geral da criança o preocupar.
A consulta é simples: o médico examina o tímpano com um otoscópio, o que basta na grande maioria dos casos para fazer o diagnóstico. Consoante a idade da criança e o aspeto do tímpano, decide entre tratar a dor e vigiar a evolução — muitas otites curam sozinhas em poucos dias — ou receitar um antibiótico. Por vezes marca-se uma consulta de controlo para verificar que o líquido atrás do tímpano drenou bem.
Aliviar enquanto espera pela consulta
Até à consulta, alguns princípios simples ajudam de verdade: tratar a dor e a febre com o analgésico habitual da criança, na dose adequada ao peso, deixá-la dormir com a cabeça ligeiramente elevada, oferecer líquidos com frequência e desobstruir o nariz com soro fisiológico — porque é aí que tudo começa. Dois gestos são absolutamente proibidos: nunca introduza um cotonete no ouvido — não chega ao problema e pode ferir o canal ou o tímpano — e não aplique gotas nos ouvidos sem indicação médica, porque algumas são perigosas se o tímpano estiver perfurado.
Otites de repetição: quando entra o ORL
Quando as otites não param de voltar — vários episódios num mesmo inverno, ou líquido que fica semanas atrás do tímpano a abafar a audição —, o pediatra encaminha a criança para o otorrinolaringologista. O ORL avalia a audição, o estado do tímpano e dos adenoides, e discute, se necessário, a colocação de tubos de ventilação transtimpânicos: pequeníssimos tubos colocados no tímpano para arejar o ouvido e quebrar o ciclo das recidivas. É uma intervenção curta e muito comum nas crianças. Uma audição abafada nunca é banal na idade em que se aprende a falar.
No Luxemburgo: percurso e reembolso
O percurso é simples: pediatra ou médico de família em primeira linha, ORL em caso de recidivas ou de dúvida sobre a audição — e no Luxemburgo pode marcar diretamente com o ORL, sem carta de referenciação. As consultas são comparticipadas pela caixa de saúde, a CNS, segundo as regras habituais de reembolso, incluindo os cuidados e intervenções ORL da criança. Fora do horário dos consultórios, as maisons médicales de garde recebem as crianças à noite e ao fim de semana.
Este conteúdo é meramente informativo e não substitui uma consulta médica. Em caso de dúvida, consulte um médico; em emergência, ligue 112.